Passos que importam

Todas as manhãs, Dona Zuleika caminha até a padaria. Anda devagar com bastante cuidado para não cair de novo. Conhece cada buraco da calçada como conhece a palma da mão. Os degraus dos ônibus são altos; o tempo do semáforo é muito curto, igual ao tempo de 12 segundos, que muitas pessoas idosas têm para atravessarem a Avenida da Glória, quando saem, por exemplo, da missa das dez horas, aos domingos, para a realização de compras nos mercados para o preparo do almoço. Ainda assim, ela segue. Como fazem muitas pessoas idosas que circulam pela cidade. Seus passos lentos, mas firmes, contam a história de uma cidade que cresceu com ela, mas que parece ter esquecido dessa e de tantas outras donas Zuleikas que deram muitos passos para construí-la.

No exercício do planejamento urbano, a cidade precisa, antes de mais nada, fazer o dever de casa: criar condições dignas para que as pessoas idosas possam caminhar com segurança. Vivemos um tempo em que o Brasil envelhece rapidamente. Em Juiz de Fora, 20% da população tem 60 anos ou mais. Isso significa que a cidade precisa, com urgência, repensar seus espaços, seus serviços e sua maneira de cuidar das pessoas idosas. Envelhecer é uma conquista. O desafio principal é manter a dignidade quando estamos velhos: um desafio coletivo, um desafio urbano e, acima de tudo, um desafio político.

Quem levanta a bandeira política das pessoas idosas? Ainda não somos uma cidade “amiga da pessoa idosa”. É possível mudar. É preciso mudar. Algumas ações são simples e viáveis: melhorar o piso das calçadas; ajustar o tempo dos semáforos; treinar permanentemente os profissionais do transporte coletivo; ouvir as pessoas idosas em audiências públicas; em sessões na Câmara Municipal; no Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa; na Câmara Sênior. As fragilidades urbanas são evidentes para a vida das pessoas idosas na cidade. Elas estão enraizadas na cultura do descarte, quando tratamos as pessoas idosas como alguém que “atrapalha o fluxo” e como alguém que “já teve o seu tempo”. Esse preconceito silencioso, muito vivo entre nós – o etarismo ou o idadismo – fere mais do que o buraco na calçada. Exclui. Invisibiliza. Despreza. Desumaniza.

Precisamos construir uma cidade onde a pessoa idosa não seja tolerada, mas respeitada; não seja um obstáculo, mas um elo da história. Envelhecer é inevitável. O que podemos escolher é como envelhecemos: com apoio, com dignidade e com pertencimento. Juiz de Fora, assim como muitas outras cidades brasileiras, passa por uma transformação demográfica que não pode ser ignorada. A população está envelhecendo, e isso traz uma série de demandas novas, para a saúde, para a assistência social, para a infraestrutura e para a mobilidade dos idosos. Uma cidade que cuida de suas pessoas idosas, que respeita o seu passado e aproveita a sua sabedoria, está no caminho certo para se tronar mais humana, justa e resiliente.

Juiz de Fora tem essa missão. Os passos das pessoas idosas importam porque eles carregam histórias, vínculos, rotinas e o direito de permanecerem ativas no espaço público. Quando a cidade exclui a pessoa idosa do contexto urbano, ela não falha apenas em acessibilidade – falha em humanidade. Envelhecer é um destino coletivo e um direito de todas e de todos. Com dignidade e com acolhimento. Uma cidade que cuida do idoso, cuida, na verdade, de todo mundo: da criança que aprende a andar; da gestante; das pessoas com deficiências; cuida de todos. Desejo uma cidade que ofereça espaços comuns para a convivência intergeracional entre todas as idades.

Jose Anisio Pitico

Assistente social e gerontólogo. De Porciúncula (RJ) para o mundo. Gosta de ler, escrever e conversar com as pessoas. Tem no trabalho social com as pessoas idosas o seu lugar. Também é colaborador da Rádio CBN Juiz de Fora com a coluna Melhor Idade

Fonte: https://tribunademinas.com.br/colunas/apessoaidosaeacidade/24-08-2025/passos-que-importam.html

Envelhecer em Juiz de Fora: cuidar ou esquecer?

Pesquisas sérias com evidências comprovadamente científicas produzidas na área da gerontologia apresentam resultados interessantes e que se tornam características próprias desta fase da vida. Entre outros achados, temos que as mulheres vivem mais do que os homens e elas se cuidam mais também. E cuidam de outras mulheres. E que tanto os homens idosos quanto as mulheres idosas vivem nas cidades, em centros urbanos. Portanto, não é nenhum exagero, ou mesmo nenhum disparate, afirmar que a velhice ou o envelhecimento é uma questão eminentemente urbana. Juiz de Fora, “a princesinha de Minas”, sempre foi vista como uma cidade do interior, com alma de metrópole, como diz a letra do seu hino, “na cultura e no trabalho não receia outra rival”.
Assim como acontece no mundo todo, os “rostos” das cidades, e claro, de Juiz de Fora, têm mudado com a passagem do tempo. Somos extraoficialmente, mais de 100 mil pessoas com 60 anos ou mais. Com toda essa gente, fica claro e evidente que a cidade envelheceu e envelhece a passos rápidos. Isso não é projeção demográfica apenas ou exercício de futurologia: é presente, é realidade. Por outro lado, me parece, que a cidade não vem junto com essa nova composição etária. O que vocês acham, caros leitores e leitoras de tal percepção?
Os juiz-foranos e juiz-foranas não acompanham essa nova realidade que é o seu envelhecimento. Que respostas temos? Parece que não estão nem aí. Estamos cuidando da população idosa como deveríamos? Não estamos cuidando, porque se estivéssemos cuidando não teríamos na cidade, calçadas esburacadas, ônibus lotados, sinais de pedestres com tempo super reduzido, por exemplo com 12 segundos para atravessar a Avenida dos Andradas, próxima à Igreja da Glória.
A cidade deve ser o lugar para o encontro das pessoas, desejamos ter e ser uma cidade para todas as idades. Não temos bancos suficientes para descanso após uma compra no mercado. Carecemos de mais espaços públicos de convivência com atividades físicas, culturais e educativas. É justo que eu escreva nesse momento sobre o quanto é muito importante para a geriatria e para a gerontologia brasileira ter, em nossa cidade, com um orgulho danado, um dos mais bonitos e melhores Centro de Convivência para as Pessoas Idosas. A cidade não cresceu, a cidade envelheceu. Precisamos de mais espaços sociais e públicos para esse público que vai viver sua longevidade, por onde está o Rio Paraibuna – antes que suas águas parem de passar.
Por que as pessoas idosas não são ouvidas no planejamento urbano? Porque elas não são consideradas no cotidiano do ambiente social e comunitário da cidade, e essa cultura etarista é reforçada por quem ocupa as salas para o planejamento urbano. As opiniões das pessoas idosas são tidas como irrelevantes, ficam ganhando poeira nas gavetas dos agentes públicos. Não poderíamos ter avançado bem, no tocante às melhorias das condições de vida delas se, pelo menos, algumas das últimas deliberações das Conferências Municipais fossem colocadas nas ruas? As políticas acabam sendo feitas por e paras os mais jovens, de classe média ou alta.
O modelo urbano de desenvolvimento das cidades despreza quem não caminha rápido, quem precisa sentar, quem precisa evitar escada ou quem depende de ônibus. Nessa direção a prevalecer essa lógica da cidade enquanto mercadoria, junto com a demolição das casas, as pessoas idosas também vão tombar, definitivamente, para o esquecimento de sua importância humana. Triste cidade! É preciso urgentemente incluir as pessoas idosas no centro do planejamento urbano para que a cidade responda às suas necessidades porque elas (ainda) enfrentam duras e pesadas barreiras físicas, sociais e econômicas para acessar o espaço urbano com segurança, autonomia e qualidade de vida.

Jose Anisio Pitico

Assistente social e gerontólogo. De Porciúncula (RJ) para o mundo. Gosta de ler, escrever e conversar com as pessoas. Tem no trabalho social com as pessoas idosas o seu lugar. Também é colaborador da Rádio CBN Juiz de Fora com a coluna Melhor Idade.

fonte: https://tribunademinas.com.br/colunas/apessoaidosaeacidade/03-08-2025/envelhecer-em-juiz-de-fora.html

Longevos e poderosos

Espero que vocês leitores estejam totalmente convencidos (de tanto que eu escrevo isso por aqui) sobre a realidade do nosso envelhecimento populacional, inclusive, o da nossa cidade – extraoficialmente com mais de 100 mil pessoas com 60 anos ou mais; que traz uma nova configuração na cidade. Impactos diversos na rotina de quem conhece o “Calçadão” da Rua Halfeld. Essa é a nova realidade mundial, nacional e local: a presença ativa, cada vez mais, das pessoas idosas no nosso dia a dia, que estão conectadas e querem qualidade de vida, diversão e tecnologia na medida certa.

Diante do número cada vez maior de pessoas idosas no contexto urbano, novos serviços e produtos devem ser oferecidos a elas, que estão mudando o jeito de envelhecer, de viver e de consumir. Aquela imagem estereotipada do idoso, visto de pijamas, recluso ao lar e lendo o jornal de ontem ficou no passado, não corresponde à realidade atual. Uma nova velhice é vivenciada pelas pessoas no tempo presente. Elas estão muito interessadas em continuar vivendo sua velhice com autonomia e independência, de olho na satisfação de suas necessidades em todas as áreas da vida – entre, tantas outras, na saúde, no lazer, turismo ou educação.

Será que o mercado, o mercado prateado, deveria vender, empregar ou respeitar quem tem mais de 60 anos, e está se orientando para enxergar as demandas desse público, que mais cresce no Brasil? O que pode ser visto em Juiz de Fora? Não basta apenas oferecer produtos para as pessoas idosas. Ou simplesmente dar oportunidade de emprego para elas. É preciso em ambos os casos, ouvir e compreender os seus desejos, criar soluções que respeitem suas experiências e preferências funcionais e de personalidade. Adequar sua competência de trabalho ao tipo de serviço que lhes é oferecido.

Talvez, uma abordagem aos clientes, de boas-vindas ao estabelecimento comercial, cause uma melhor impressão e fidelidade ao supermercado, por exemplo; do que a pessoa idosa ficar exaustivamente, por muitas horas, no guichê do caixa. É preciso ter uma percepção diferenciada ao trabalhador sênior por parte do empregador.

Veja o filme “Um senhor estagiário” (2015), com o octagenário ator, cada vez melhor, Robert De Niro, que ficará mais claro, isso que estou escrevendo. Considerando as devidas proporções e diferenças entre o filme do excelente ator e o filme que a minha mãe viveu; ela, também, deu conta um pouco dessa realidade, de enfrentar o etarismo no meio produtivo de trabalho composto por gerações mais jovens. Motivada a trabalhar pelo complemento de sua aposentadoria, isso teve um fator relevante na sua decisão, mas, o principal ganho para ela e que ela fazia questão de dividir com a gente, seus filhos, era a consideração e o respeito que tinha de seus diretores, e o companheirismo e a amizade firmada com os seus colegas de bancada de ofício, trabalho em confecção de meias.

A socialização e sensação (a vivência) de se sentir útil valeram muito mais do que um pouco de dinheiro na poupança. Com o aumento do tempo real de nossa vida, a conquista da longevidade humana, faz-se necessário repensar as nossas relações sociais e de trabalho. O Mercado precisa acompanhar essa nova tendência, impulsionada pelo nosso envelhecimento, de buscar e apoiar a reinserção dos 50+, 60+, 70+ a um novo começo de trabalho e/ou potencial de consumo. Não faz sentido deixar de fora, da economia, o grupo que mais cresce, mais vive e, muitas vezes, tem mais dinheiro no bolso.

Jose Anisio Pitico

Assistente social e gerontólogo. De Porciúncula (RJ) para o mundo. Gosta de ler, escrever e conversar com as pessoas. Tem no trabalho social com as pessoas idosas o seu lugar. Também é colaborador da Rádio CBN Juiz de Fora com a coluna Melhor Idade

Fonte:https://tribunademinas.com.br/colunas/apessoaidosaeacidade/20-07-2025/longevos-e-poderosos.html

Cuidar de pessoas idosas: demandas e desafios

Nos últimos dias o tema do envelhecimento humano vem chamando a atenção da grande mídia nacional. Recentemente, a TV Globo inaugurou a série “Prazer, Renata 60+ exibida no Fantástico. Eu vi (e gostei muito), atentamente, e fui recomendado a amigos e amigas para não deixarem de assistir. Nos próximos domingos, como nesse de hoje, teremos mais episódios. Caros leitores e leitoras é uma boa dica para finalizarmos o fim de semana com boas reflexões e mudanças de atitudes em relação ao nosso envelhecimento. Essa nova realidade nacional e local.

Mas falando em cobertura midiática sobre o nosso envelhecimento, o jornal Folha de São Paulo tem dado, também, destaque ao tema. Somente na primeira semana deste mês trouxe duas matérias super interessantes. Uma delas dando conta de que mais de 90% dos responsáveis pelos cuidados às pessoas idosas com demências são mulheres. Segundo pesquisa recém-publicada da Unifesp – Universidade Federal de São Paulo – desse contingente, 85% relatam exaustão emocional, 78% declaram sentir cansaço físico constante e 62,5% afirmam que essa função impactou negativamente sua vida pessoal.

A outra matéria do jornal supracitado, que tem a ver com a primeira, fala sobre o que acontece com as cuidadoras de pessoas idosas japonesas. Digo cuidadoras, porque, tanto lá fora como aqui, quem cuida são as mulheres. O que é uma característica do nosso envelhecimento, independentemente do lugar que se envelheça. Há que se considerar também que as mulheres vivem mais do que os homens. Outro sinal marcante da nossa longevidade. E quem cuida das mulheres? Outras mulheres. É uma equação muito injusta e dolorosa: mulheres que precisam ser cuidadas, cuidam de outras; e ainda por cima, não recebem nenhuma remuneração. Isso tem que mudar.

A economia do cuidado tem sido pauta em outras realidades fora do nosso país e nos atinge em cheio por aqui. É fundamental que haja regulamentação pelo Estado desse tipo importante de ocupação. Quantas filhas ou outros familiares não interrompem sua carreira profissional, às vezes no auge de sua potência produtiva salarial para cuidar de sua mãe ou de seu pai? E isso não é contabilizado, por exemplo, nas aposentadorias delas. E muitas das vezes, sem o reconhecimento familiar e social.

Mas, voltando ao Japão, a matéria traz informações de que a cada oito dias, uma pessoa idosa é morta por um cuidador exausto, quase sempre por um familiar – e, em muitos casos, a ação é seguida de suicídio. Esse fenômeno é denominado pelos estudiosos de “care killing”. Na minha livre interpretação do conceito, entendo que o estresse extremado provocado pela demência leva a pessoa cuidadora dar fim a vida da pessoa idosa que cuida, e depois, termina com a sua própria vida. Faço aqui uma associação com o filme “Amor”, uma produção cinematográfica de 2012, com direção de Michael Haneke, estrelando Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva e Isabelle Huppert.

O filme, muito forte e denso, traz essa realidade do desgaste físico e emocional que o cuidado provoca em quem cuida, a ponto de por um ponto final na vida de quem tanto se ama. Vale a pena conferir. Apesar de tanta dor. O que está acontecendo com algumas pessoas idosas japonesas, conforme relato da matéria, na realidade brasileira não há diferenças. O desequilíbrio entre a demanda crescente e cada vez maior por cuidados e a falta de cuidadores especializados só amplia os desafios do país e da cidade na oferta de serviços públicos eficientes que garantam um envelhecimento de qualidade para todas as pessoas. A grande questão é: afinal de contas, quem vai cuidar das pessoas idosas dependentes?

Jose Anisio Pitico

Assistente social e gerontólogo. De Porciúncula (RJ) para o mundo. Gosta de ler, escrever e conversar com as pessoas. Tem no trabalho social com as pessoas idosas o seu lugar. Também é colaborador da Rádio CBN Juiz de Fora com a coluna Melhor Idade

As pessoas idosas são avessas à tecnologia?

As pessoas idosas não são avessas a nada. As pessoas idosas têm o direito de viver. Elas podem muito. Podem muito mais do que imaginam. Elas podem muito mais do que a sociedade permite. Sociedade que exclui, sociedade que discrimina também pela idade. As pessoas idosas podem usufruir de tudo o que há na vida. O que falta a elas são oportunidades. Reconhecimentos. Investimentos. Mudança de cultura, de uma sociedade etarista para uma sociedade que aposte na (nossa) capacidade humana de existir sem levar em consideração a idade das pessoas. No mundo tecnológico em que estamos, é preciso abrir as portas para a entrada de um grande contingente de pessoas idosas que estão colocadas à margem de toda essa engenharia tecnológica em que vivemos. Principalmente no domínio do meio digital.

Existimos virtualmente, e as pessoas idosas também. Assim, como a maioria da população brasileira, que encontra-se num índice elevado de analfabetismo, de pouca familiaridade com a instrução formal; um percentual considerável de pessoas idosas mal sabe ler e escrever, são analfabetos funcionais. Como, então, manusear os mouses dos computadores? Como dialogar com os algoritmos? Como ter autonomia para direcionar as teclas dos caixas eletrônicos nas agências bancárias? Não devemos, de antemão, por mero preconceito e discriminação instituída, afastar o mundo tecnológico de ser uma conquista das pessoas idosas.

Considerando que as velhices são múltiplas e diversas, boa parte das pessoas idosas, as que tem mais recursos financeiros e educacionais, fica bem à vontade para existir nesse ambiente virtual da vida, com todas as possibilidades de comunicação existente. O que ficou evidente no período da Covid, quando esses idosos em condições de velhice diferenciada da maioria das outras pessoas idosas, é que utilizaram para valer os instrumentos da tecnologia digital para o convívio social e familiar.

O desafio político a ser enfrentado pela cidade, mais um, é oferecer atividades, como vários cursos e workshops, que promovam a inclusão social das pessoas idosas, garantindo o acesso delas a um grau maior de cidadania e de civilidade. É possível, sim, nesse espaço virtual de comunicação, a aproximação das gerações, começando, muitas das vezes, dentro de casa. Quando o neto passa para a sua avó os comandos para uma boa navegação na internet. A curiosidade e a imaginação voam longe demais, independentemente da nossa idade.

O que a gente precisa preservar é para que os nossas horas que são só nossas, não sejam roubadas de nós, diante de um eterno e cansativo monólogo-solidão, de alguém do nosso convívio diário nos encontros familiares. Não há democracia sem o acesso das pessoas idosas, de todas as pessoas, no universo das tecnologias da informação. As pessoas idosas, portanto, respondendo à provocação da pergunta-título dessa coluna, não são avessos à tecnologia. Esse direito e tantos outros serão conquistados quando as pessoas idosas efetivamente estiverem incluídas no planejamento municipal e fizerem parte ativa do orçamento público da cidade.

Por enquanto, o que temos são somente narrativas. Temos pouco de concreto de ações estruturantes para melhorar as condições de vida das pessoas idosas que fizerem muito pela cidade e que podem continuar fazendo muito por ela. São mais de 100 mil pessoas idosas que desejam ter uma cidade melhor para o seu envelhecimento e para o envelhecimento de todos nós, que estamos nessa caminhada. O direito às tecnologias informacionais com todas as suas expressões é um parâmetro fundamental de cidadania para o fortalecimento das relações democráticas entre governo e sociedade, entre a gestão pública e a comunidade, aqui, direcionada para as pessoas idosas.

Jose Anisio Pitico

Assistente social e gerontólogo. De Porciúncula (RJ) para o mundo. Gosta de ler, escrever e conversar com as pessoas. Tem no trabalho social com as pessoas idosas o seu lugar. Também é colaborador da Rádio CBN Juiz de Fora com a coluna Melhor Idade

Fonte: https://tribunademinas.com.br/colunas/apessoaidosaeacidade/06-07-2025/as-pessoas-idosas-sao-avessas-a-tecnologia.html

Quedas em pessoas idosas

A última terça-feira (24), foi um marco importante no calendário temático da geriatria e da gerontologia, que merece uma coluna de destaque. Foi o Dia Mundial de Prevenção de Quedas, notadamente, quedas em pessoas idosas. Minha expectativa aqui com essas linhas é a de chamar a sua atenção, caro leitor e leitora, que pode estar cuidando de uma pessoa idosa da sua família, e, às vezes, não dá a devida importância sobre a ocorrência de quedas que acontecem com os nossos familiares idosos ou com as pessoas idosas, de um modo geral.

É próprio do senso comum, e têm muitas pessoas instruídas que pensam assim, que não valorizam esses eventos (as quedas). Acham que é normal ou natural, como se esses acidentes, esses desequilíbrios corporais fizessem parte do envelhecimento: caiu, porque tá velho/a, é assim mesmo! Nada disso. Precisamos buscar a informação científica. Quem cai de maduro é fruta. Gente, não. Esse assunto exige das especialidades profissionais muito interesse. E tem que ter mesmo a atuação de vários profissionais de saúde na investigação e elaboração de um diagnóstico sobre o porquê que a pessoa idosa caiu ou vem caindo frequentemente.

Muitas desculpas são apresentadas por algumas pessoas idosas, para justificarem porque caíram: ah, eu pisei no fio que estava solto na sala; não vi o rabo do cachorro, pisei nele e me desequilibrei; minha sandália saiu do pé. São várias situações corriqueiras que podem acontecer e acontecem para as justificativas das quedas, que muitas das vezes, são feitas com um tom pessoal de desprezo e de ironia. Essas desatenções pessoais, certamente, podem e devem contribuir para a incidência desses acidentes, que geralmente, acontecem dentro de casas. Mas, o diferencial é não parar por aqui.

É necessário buscar uma orientação de profissionais qualificados. O familiar cuidador deve ficar atento. E valorizar esses eventos. Diante de um acidente doméstico provocado por uma queda é muito comum a gente ouvir da própria pessoa idosa que sofreu o acidente, o seguinte comentário: “deixa prá lá, isso não foi nada”; “não precisa marcar uma consulta médica, não, isso, passa”. A própria pessoa idosa se negligencia, e, muitas das vezes, com o nosso consentimento. Como cientificamente está dado, é em casa o lugar onde mais as pessoas idosas sofrem com as quedas. Elas caem mais é no deslocamento de um cômodo da casa para outro. Do quarto para o banheiro e do banheiro para o quarto.

É preciso então que a gente crie um ambiente seguro e de bem-estar na nossa casa. Uma boa iluminação. Evitar tapetes soltos pela sala. Fios. Objetos caídos no chão. Ter cuidado com os pets. Mas as pessoas idosas não querem só ficar em casa. Elas querem sair. Ir para as ruas. E como estão as nossas calçadas?.Melhor que elas fiquem em casa. A prevalência de quedas em pessoas idosas pode parecer uma coisa pequena, diante da correria do nosso dia a dia, pode parecer uma coisa boba, mas uma queda pode levar uma pessoa idosa a óbito. Eu tenho memória de relatos de pessoas próximas que me disseram da morte de pessoas idosas por conta de “um simples tombo”.

Se desejamos ter uma cidade para todas as idades é preciso que a cidade execute serviços públicos que incluam as pessoas idosas no seu contexto diário, com segurança e vida, em todas as suas necessidades. Ter um tempo de 12 segundos para a travessia de uma via, não favorece o direito à cidade por muitas pessoas idosas.

Jose Anisio Pitico

Assistente social e gerontólogo. De Porciúncula (RJ) para o mundo. Gosta de ler, escrever e conversar com as pessoas. Tem no trabalho social com as pessoas idosas o seu lugar. Também é colaborador da Rádio CBN Juiz de Fora com a coluna Melhor Idade

Fonte: https://tribunademinas.com.br/colunas/apessoaidosaeacidade/29-06-2025/quedas-em-pessoas-idosas.html

Envelhecimento LGBTs 60+

“A importância da realização dessa Parada é que ela traz publicamente a reivindicação de quem é discriminado, por mais respeito e por mais amor, e que como todos nós, carecem de um tratamento social de mais afeto e consideração para as suas velhices com suas preferências e identidades na expressão maior do amor que trazem na alma.”

Acontece neste domingo (22) em São Paulo, mais uma Parada do Orgulho, a 29ª. Com um motivo super interessante e que precisa ser visto e respeitado: o envelhecimento de todos nós, o envelhecimento LGBT 60+. Não quero fazer nenhuma distinção, longe disso; muito menos, nenhum julgamento pessoal, por conta da construção das subjetividades das pessoas ao envelhecerem; desejo valorizar a importância da realização de mais uma Parada do Orgulho para chamar a atenção de toda a sociedade, de que todos nós envelhecemos, e que, há entre nós, muito mais semelhanças do que diferenças por conta da nossa definição, orientação ou identidade sexual.

Mas devo admitir e admito – o que vocês acham, caros leitores e leitoras, quando eu escrevo que essas pautas ainda são poucas faladas publicamente: sexo e velhice? É como se elas não existissem no nosso destino humano de viver. Como vivemos numa sociedade etarista que condena a todos nós que envelhecemos a um lugar de não existir, de não amar e de não sermos amados, a intimidade fica completamente rejeitada nas nossas relações sociais e ainda é motivo de muitos preconceitos e anulação da nossa capacidade de amar independentemente da idade e do gênero.

O tema definido pela organização para a Parada desse ano acontece em plena mudança do perfil etário da nossa população, no nosso país e em nossas cidades, como aqui em Juiz de Fora, que é o aumento expressivo do número de pessoas com a idade de 65 anos ou mais. Dos 203,1 milhões de brasileiros, 22,2 milhões estão nessa faixa etária.(IBGE, 2023). É uma pena que o Censo não traga números sobre a comunidade LGBT 60+. O que reproduz a invisibilidade social dessa realidade existente entre nós, dentro dos nossos círculos de amizades e familiares.

A importância da realização dessa Parada é que ela traz publicamente a reivindicação de quem é discriminado, por mais respeito e por mais amor, e que como todos nós, carecem de um tratamento social de mais afeto e consideração para as suas velhices com suas preferências e identidades na expressão maior do amor que trazem na alma.

Mais do que ser um evento midiático, mais do que ser um desfile com personagens divertidos, alegres e bem-humorados, o que é bacana, a Parada do Orgulho deve ser vista com uma atividade política, reivindicatória e não apenas como uma festa. Trata-se de se constituir numa organização coletiva que está reunida, que está nas ruas e nas avenidas, exigindo cidadania e o seu direito de envelhecer, como são; como se encontram no melhor modo de ser, delas mesmas; sendo elas mesmas, principalmente nessa fase da vida, que é a oportunidade que temos para a gente ser aquilo que sempre desejamos ser, sem amarras e livres para existir. Custe o que custar.

Naturalmente, é preciso ter coragem. Para que a coragem seja nossa companheira desde cedo, é preciso que uma nova educação social seja construída para que assuntos como esses sejam apropriados criticamente pelas gerações futuras e re/pensados pelas gerações já maduras. É muito bom saber e perceber que esses temas, longevidade,  sexualidade e comunidade LGBT 60+, estão sendo trazidos, debatidos e vistos em algumas edições culturais: no cinema, no teatro e entre outras manifestações.

Se ainda guardamos resistências culturais e sociais nas nossas relações com o nosso envelhecimento, e com tudo que ele traz, de ganhos e perdas, como em qualquer fase da nossa vida; mais ainda, torna-se fundamental vivenciar essa realidade conjugada com a expressão de nossa sexualidade, tendo em vista, alcançar um grau maior de liberdade em nós mesmos para guardarmos fidelidade ao que um dia desejávamos ser.

fonte: https://tribunademinas.com.br/colunas/apessoaidosaeacidade/22-06-2025/envelhecimento-lgbts-60.html

Desrespeito revestido de afeto

O Dia Mundial de Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa é celebrado neste domingo (15). Dia que foi instituído pela ONU – Organização das Nações Unidas – e pela Rede Internacional de Prevenção à Violência à Pessoa Idosa. Se não existisse violência contra as pessoas idosas essa data não estaria presente no calendário mundial. Ou seja, a violência existe, sempre existiu, independente de classes sociais e de condições econômicas.

Ela manifesta-se de diferentes formas, e muitas das vezes, atinge as pessoas idosas, com estratégias sutis nas suas expressões e quase despercebidas de violências, como as que são produzidas por algumas pessoas da família e/ou por cuidadores, que podem parecer que estejam acompanhadas de carinhos e pretensas manifestações de afetos, mas, no fundo, desrespeitam as pessoas idosas, as diminuem como seres humanos, do que, verdadeiramente, as confortam na intimidade delas.

São derivações variadas de violências: gritos, negligências, chantagens, punições, ameaças e castigos distintos. Esse contexto não é muito raro de a gente reconhecer em alguns ambientes familiares com o domínio da repressão e o emprego da força por parte de algum cuidador familiar que é tido como referência no cuidado, por outras questões construídas na relação doméstica, mas que não tem a mínima habilidade, e muito menos seria a pessoa mais indicada para essa função. Mas cuidar de uma pessoa idosa em casa, dependendo do grau de dependência, não é tarefa que gera disponibilidade dos familiares. Todo mundo tem as suas responsabilidades. E cada um cuida, quando cuida, com a sua possibilidade existente.

É no círculo familiar que acontece os principais casos de violências. Estudos revelam que os agressores das pessoas idosas têm algum grau de parentesco entre si. São pessoas do grupo familiar que provocam vários abusos contra seus idosos. O que pode justificar as subnotificações desses crimes às autoridades especializadas na apuração e punição. Por exemplo. Como eu vou denunciar meu neto às autoridades policiais?

A violência contra as pessoas idosas é um problema real, que infelizmente, vem aumentando ultimamente, e traz profundas repercussões psicológicas, físicas, médicas jurídicas e éticas à sociedade e ao país, e ainda permanecem ocultas e com pouco enfrentamento por parte de nossas instituições públicas e dirigentes políticos. O enfrentamento da violência contra as pessoas idosas envolve a mudança de comportamento de toda a sociedade na eliminação do nosso preconceito em relação a todos nós que envelhecemos. A violência contra as pessoas idosas não está apenas nas feridas e luxações no corpo, mas também nas miudezas imperceptíveis do nosso relacionamento no convívio social do nosso dia a dia em nossa cidade.

Nas calçadas esburacadas. No degrau elevado de alguns ônibus, para entrar e sair, no transporte coletivo. Na velocidade própria de um atleta, que não temos e nem somos, para atravessar a rua, em 12 segundos, indicados pelo semáforo, próximo à Igreja da Glória. Nos caixas eletrônicos das agências bancárias que tem uma velocidade maior do que o nosso tempo para dominar as operações financeiras. E as violências invisíveis, aquelas que nosso olhar não alcança? A invisibilidade da falta do que ter para comer; de não ter dinheiro para comprar o remédio; de dormir nas ruas; de mesmo morando em casa não tem o amor dos filhos.

A violência contra as pessoas idosas deveria nos envergonhar. Como admitimos essa realidade? Que futuro teremos com esse presente violento? É o maior problema de saúde pública da atualidade, e o que mais cresce. Como mudar essa realidade? Promovendo diariamente uma educação para o nosso envelhecimento com eventos e campanhas educativas, debates, simpósios, seminários, conferências sobre como é envelhecer na cidade.

Jose Anisio Pitico

Assistente social e gerontólogo. De Porciúncula (RJ) para o mundo. Gosta de ler, escrever e conversar com as pessoas. Tem no trabalho social com as pessoas idosas o seu lugar. Também é colaborador da Rádio CBN Juiz de Fora com a coluna Melhor Idade. Contato: (32) 98828-6941

fonte: https://tribunademinas.com.br/colunas/apessoaidosaeacidade/15-06-2025/desrespeito-revestido-de-afeto.html

Mais uma conferência

“A promoção de conferências municipais tem sido uma prática social e política da gestão pública e dos referidos conselhos. O que é extremamente interessante e necessário.”

A manifestação política dos movimentos sociais mudou muito. Saudades dos anos 1980. Dos caras pintadas. Do movimento das donas de casas. Aqui na cidade muito bem representado pela incansável Sra. Heloiza Lino. Não temos mais (vivos) os movimentos coletivos reivindicatórios que aconteciam nesse período. Nos dias de hoje, as ruas estão vazias de pessoas que se preocupam com outras pessoas: é cada um por si na pressa desmedida para sobreviver.

O lugar da nossa contestação social, do nosso grito, está nas redes sociais, está na realidade virtual, na militância do sofá, em substituição ao barulho das ruas. Nossa humanidade está muito fragilizada: o que é ser humano em tempos de algoritmo e inteligência artificial? Como pensar o futuro da cidade sem ouvir os mais velhos?

Nessa direção, aconteceu um grande evento, nessa semana, que foi a realização da 6ª Conferência Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa. A cidade, simbolicamente, parou para ouvir as pessoas idosas. Que cidade elas querem? A cidade atende ou vem atendendo às suas necessidades e interesses? registra avanços significativos para se tornar efetivamente uma cidade amiga da pessoa idosa? É hora de as pessoas idosas conferirem – daí vem a ideia de conferência – o que vem sendo criado para elas na cidade. Foi com essas perguntas (e outras) que o Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa, em parceria com a PJF, cumpriu brilhantemente o seu papel de promover o protagonismo das pessoas idosas no ambiente urbano de Juiz de Fora.

Os efeitos da realização de mais uma conferência, não podem parar por aqui, somente nas calorosas discussões e debates, nas questões de ordens, de esclarecimentos e de destaques. É preciso agir. É preciso ação. Sair do papel. Afinal de contas, a cidade já participou de cinco conferências anteriores, essa foi a sexta, e chega a pergunta que não quer calar: o que mudou para valer, na vida das pessoas idosas, inclusive, na vida daquelas que participaram dessas conferências?

A promoção de conferências municipais tem sido uma prática social e política da gestão pública e dos referidos conselhos. O que é extremamente interessante e necessário. O que aprendi, como militante da longevidade, é que as deliberações desses fóruns, super importantes, como as conferências municipais, precisam, de fato, entrar no planejamento público da gestão municipal. De que adianta produzir tanta falação, se as condições de vida, no caso, em questão, das pessoas idosas, continuam do mesmo jeito, nada mudou?

Depois não adianta reclamar: ah, que ninguém participa! de que me serve participar, se a minha voz não é ouvida? O que se tem, na maioria das vezes, é somente um sim protocolar. Espero que todas as propostas deliberadas e aprovadas por um contingente expressivo de participantes dessa 6ª Conferência façam parte do planejamento de todas as instâncias governamentais: municipais, estaduais e federais. E que a questão do envelhecimento entre, de uma vez por todas, no orçamento público da gestão.

Só de boas intenções não se muda a realidade das pessoas idosas, principalmente, daquelas que mais precisam do apoio público. O investimento financeiro é fundamental para as políticas públicas acontecerem. E há muito que não temos na cidade oferta de novos e outros equipamentos sociais e de saúde para a população idosa. E a cidade não para de envelhecer. Já se foram 175 anos. E para os próximos anos, eu desejo firmemente que a cidade promova cada vez mais o reconhecimento de suas pessoas idosas. Não há futuro nenhum no mundo e para o mundo sem o respeito, a consideração e a presença viva de quem chegou antes de nós.

Jose Anisio Pitico

Assistente social e gerontólogo. De Porciúncula (RJ) para o mundo. Gosta de ler, escrever e conversar com as pessoas. Tem no trabalho social com as pessoas idosas o seu lugar. Também é colaborador da Rádio CBN Juiz de Fora com a coluna Melhor Idade. Contato: (32) 98828-6941

Fonte: https://tribunademinas.com.br/colunas/apessoaidosaeacidade/08-06-2025/conferencia-pessoa-idosa.html

Bebês reborn não envelhecem

“A situação demonstra o quanto que precisamos amar mais, resistir e lutar por dias mais generosos e respeitosos com as pessoas.”

No lendário “Rock Da Cachorra”, hit musical nos anos 80, o artista Eduardo Dusek chamava a atenção da sociedade para a existência das crianças pobres – “tem muita gente por aí, que tá querendo levar uma vida de cão; eu conheço um garotinho que queria ter nascido pastor-alemão; seja mais humano, seja menos canino, dê guarita pro cachorro, mas também dê pro menino, senão um dia desse você vai amanhecer latindo”. Pouca gente ouviu. Os pets ganharam lares (nada contra) e as crianças continuaram nas ruas: abandonadas. Hoje, o cantor, compositor e ator convive com a doença de Parkinson há cerca de 10 anos, e mantém uma vida ativa; recentemente, participou do programa Altas Horas, da TV Globo, com a apresentação de Serginho Groisman: falou sobre a sua fase de vida na convivência com essa doença.

As redes sociais ocupam o nosso dia a dia sobre o que acontece no mundo, de modo real. Semana passada vi e li sobre as “mães reborn”. Fiquei perplexo, certamente, vocês ficariam, caros leitores e leitoras: são bonecos e bonecas que imitam crianças; são bem parecidas, parecidíssimas. E como nos advertia Dusek, em relação aos cachorros e os meninos de rua, essas criaturas são muito bem cuidadas; muito mais até do que as crianças, que falam e que choram. E na sequência dessa nova realidade, aconteceu em SP, no Parque Villa-Lobos, um encontro de 50 mães reborn, com seus filhos e filhas, ao ar livre, na manhã de sábado passado.

Imaginem, se isso acontece no Parque Halfeld? Pode ser, né? E chamaria a presença não só da mídia nacional, como também, da imprensa internacional, como aconteceu em SP. Esse movimento está pautando os principais canais e veículos de comunicação. O que está acontecendo com as pessoas? O porquê desse tipo de comportamento? Com a palavra, os especialistas, de plantão. Em mim, me trouxe muita indignação pela morte em vida da nossa condição humana de existir e de viver a vida. Uma tristeza profunda. A falência dos afetos humanos. Mas por um outro lado, demonstra o quanto que precisamos amar mais, resistir e lutar por dias mais generosos e respeitosos com as pessoas.

Algumas dessas mães presentes a essa reunião em SP, relataram que essa atitude de terem os seus filhos reborn fica por conta da necessidade afetiva; necessidade de amar alguém; necessidade de eternizar-se na presença desses filhos e filhas. Não podemos desconsiderar a intenção lucrativa desse grande negócio que deu muito engajamento nas redes sociais e está dando muito dinheiro para muita gente, mundo afora. Uma dessas mães entrevistadas, afirmou que comprou um boneco por R$ 200 e revendeu o mesmo por R$ 800, depois de ter feito uma grande transformação nele com detalhes de humanos; pintura de cor de pele, cabelos e sobrancelhas desenhados. O que isso tem a ver com o nosso envelhecimento? É mais uma tentativa de negar a nossa humanidade, negar a nossa velhice e negar a nossa morte.

Por que esses bebês reborn não choram, eles também não envelhecem nunca, eles não crescem, eles estão totalmente alheios a passagem do tempo (como as flores de plástico cantadas pelos Titãs, elas não morrem jamais). Eles, simbolicamente, domesticam a ausência da dor e do sofrimento tão próprios da nossa condição humana. Essas fantasias dão muitos lucros como o que está acontecendo nesse novo mercado dos “reborn” ao lado da nossa miséria humana de incapacidade de amar as pessoas. Por que não adotar uma pessoa idosa? Quantas estão por aí, perto de nós, que não tem ninguém para si.

Jose Anisio Pitico

Assistente social e gerontólogo. De Porciúncula (RJ) para o mundo. Gosta de ler, escrever e conversar com as pessoas. Tem no trabalho social com as pessoas idosas o seu lugar. Também é colaborador da Rádio CBN Juiz de Fora com a coluna Melhor Idade. Contato: (32) 98828-6941

Fonte: https://tribunademinas.com.br/colunas/apessoaidosaeacidade/01-06-2025/bebes-reborn-nao-envelhecem.html